Francisco, Jesus e os Fariseus…

por Fr. Joel Moreira, NDS

“Enviaram-lhe alguns fariseus e herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra. Aproximaram-se dele e disseram-lhe: Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade. É permitido que se pague o imposto a César ou não? Devemos ou não pagá-lo? Conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu-lhes Jesus: Por que me quereis armar um laço? Mostrai-me um denário. Apresentaram-lho. E ele perguntou-lhes: De quem é esta imagem e a inscrição? De César, responderam-lhe. Jesus então lhes replicou. Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele.” (Mc 12,13-17).

Como se percebe nesta passagem, a Sabedoria de Jesus supera em muito um conhecimento mecânico e literário das Sagradas Escrituras. A resposta que ele dá às provocações de seus adversários só prova o quanto Jesus é profundamente genuíno e imprevisível. Numa armadilha retórica friamente planejada, onde Jesus se encontra forçado a ter que escolher por A ou B (isto é, pagar ou não pagar o imposto a César), eis que o Filho de Deus, imbuído de sabedoria divina, encontra uma alternativa inesperada: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Não podiam prever sua resposta porque não estavam no mesmo plano de Jesus. A perspectiva daqueles fariseus ainda não superou o discurso sócio-político. A dimensão que Jesus vislumbra é outra. Ela não ignora tal discurso, mas o supera drasticamente. O Reino que Jesus anuncia ainda está longe de ser compreendido por aqueles que o circundam, sejam eles fariseus, sejam mesmo seus discípulos mais próximos (Cf. 10,37.43.44).

Um caso recente reflete um pouco o episódio de Jesus com os fariseus. É o que ocorreu com o Papa Francisco numa celebração ecumênica que comemorava os 500 anos de Reforma Protestante. Antes de tudo, é preciso observar que eu particularmente considero o Papa Francisco um dos mais nobres exemplos de seguimento a Jesus Cristo de nossos tempos.

Assim como todos os eventos que envolvem a presença do Pontífice, esta celebração foi pomposa, contou com o comparecimento de várias autoridades civis e religiosas, foi televisionada e transmitida para o mundo todo pelas redes sociais. É natural que, em circunstâncias como esta, tudo o que o Papa fala pode ter um peso relevante não só na esfera religiosa, mas também política.

Fato é que, num determinado momento do evento, leigos foram convidados para publicamente lerem perguntas direcionadas ao Papa (perguntas obviamente previamente formuladas e checadas por autoridades competentes). Foi daí que uma jovem indagou ao Santo Padre: “Qual foi o melhor reformador, na sua opinião?” À semelhança do que acontece na passagem do Evangelho, Francisco se encontra diante de uma pergunta que o força a escolher um “melhor reformador” da Igreja. Visto que, na prática, a Reforma Protestante significou um relevante cisma na Igreja Católica, qualquer menção de um possível “melhor reformador” significaria para muitos o mesmo que admitir o caráter celebrativo da separação dos cristãos.

Diante de situação tão constrangedora, cuja resposta, independente de qual fosse, só causaria polêmicas e controvérsias, Francisco brilhantemente, a exemplo de Jesus, responde à pergunta com outra pergunta, direcionada à toda assembleia (de maioria protestante): “Quem são os melhores: os protestantes ou os católicos?” Dois ou três segundos de silêncio e, então, todos os presentes aplaudem, como que admitindo que, naquele momento, todos sentiram na pele o desconforto sentido pelo Papa diante de semelhante pergunta.

Depois dos aplausos, Francisco simplesmente conclui com voz dócil: “ O melhor mesmo é que estejamos juntos, né?” Esta resposta final é que me faz ousadamente comparar a atitude do Papa com a de Jesus diante dos fariseus. Pois também o Papa foi genuíno e imprevisível ao responder para os cristãos do nosso tempo. Um cristianismo que se divide entre aqueles que veem a Reforma como uma grande tragédia que afastou muitas almas da ortodoxia e da “sã doutrina” e aqueles que entendem “Igreja” como uma realidade abstrata, que talvez se encontre no coração do cristão, mas que com certeza não se encontra em instituições humanas.

A pergunta desconcertante feita a Francisco tinha o trajeto natural de resultar em controvérsias relacionadas ao cisma, à ortodoxia, às heresias, ao sincretismo religioso, etc. Contudo, a resposta do Papa foi imprevisível. Diante de todas as expectativas conflitantes, os valores que Francisco tinha em mente eram mais elevados, pois estavam em contato direto com o propósito de Cristo: “Que todos sejam Um, para que o mundo creia” (Jo 17,21).

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