Hierofania: o sagrado que se manifesta no tempo.

Sabemos que o profano é algo corriqueiro, diz-se das coisas comuns, atividades que são realizadas todos os dias sem um significado específico, algo que não tem uma espera do crente, já o sagrado diz respeito ao oposto, o esperado, o destacado tem o ideal de modificar algo ou alguém, e sobretudo algo que possui um sentido, um significado.

Hierofania no judaísmo

Hierofania: é o sagrado que se manifesta no tempo cronológico. Empregado no contexto judaico, acontece sobretudo através das festas judaicas, sendo a principal delas o Shabat, que é uma festa semanal, tendo o princípio de santificar, sacralizar o tempo “lembra-te do dia do Shabat para santificá-lo” (Ex. 20,8). “Guardarás o Shabat para santificá-lo” (Dt. 5,12). O verbo empregado “ lembrar-se” sugere o começar antes da hora, e o “guardar” é o prolongar-se após o tempo.  E é neste contexto que se inicia a celebração um pouco antes de sua “entrada” efetiva – na aparição da primeira estrela – e prolonga-se um pouco depois de sua “partida”, isto é, para que haja a presença do sagrado no nosso tempo existem condições para que se concretize.

A hierofania no Shabat se inicia no rito de acendimento das velas, uma benção que apenas as mulheres podem exercer “pois as mulheres que geram a luz”. A luz, em seu aspecto simbólico neste rito, mostra a passagem do tempo caótico para o tempo cosmológico, um tempo ordenado, um tempo sagrado, com o designo de santificar e permitir a manifestação do transcendente. No prolongar do rito temos outros elementos que nos apontam ao sagrado, desde os cânticos dedicados ao “ amado” e à “ noiva”, os salmos de Davi com a interpretação rabínica da Torah escrita à Torah oral; “Moises fez descer a Palavra de Deus aos homens através de cinco livros, Davi faz subir a oração dos homens a Deus através de cinco livros” (resposta a Deus – “ reação a um estimulo”). Mas o intuito principal do Shabat em nossa era contemporânea é a espera pelo shabat eterno, “o oitavo dia”, o dia que todos os descendentes de Abraão, os filhos de Israel, o povo Hebreu, o povo judeu viverem na plenitude do sagrado.

A continuidade da hierofania no cristianismo – aspecto sabático

Contudo, o Transcendente se manifesta a todos, trazendo para a realidade gentia a hierofania, na qual Ele mesmo se revela através da forma humana, com o intuito de todos participarem deste projeto do Shabat eterno “Passado o sábado, Maria de Magdala e Maria, mãe de Tiago, e Salomé […] De madrugada, no primeiro dia da semana, elas foram ao túmulo ao nascer do sol” (Mar 16,1ss). Percebemos que no evangelho de Marcos, as mulheres vão ao túmulo vazio ao amanhecer, fazendo uma alusão de que as mulheres vão com a luz dado pela noiva que é o dia anterior, A Shabat. Elas cumprem o preceito do rito do acendimento das velas.

Outra referência que também temos é a teofania – real aparição ou revelação da divindade; manifestação de Deus- “Ao amanhecer, desde cedo, houve trovões, relâmpagos” (Ex 19,16)  e o evangelho de Mateus nos apresenta características desta teofania, que a Torah escrita explicita, com as características do “amanhecer”, “relâmpagos”.  

“Após o sábado, ao raiar do primeiro dia da semana […] eis que houve um grande terremoto: pois o Anjo do Senhor, descendo do céu e aproximando-se, removeu a pedra e sentou-se sobre ela, o aspecto era como o do relâmpago e a sua roupa, alva como a neve.” (Mt 28, 1ss).

Usando a referência de Mateus, podemos notar a aparição de Jesus, o Transcendente manifesto em carne, em seu corpo glorioso, ressuscitado, que se apresenta no contexto da esperança do Shabat. Observamos que ele se revela no dia depois do Shabat, que é o oitavo dia. No Evangelho de João também podemos perceber isso “Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e Tomé com eles. Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: – A Paz esteja convosco…”  (Jo 20,26).

Compreendemos que Jesus é o prolongamento do Shabat para o mundo gentílico, que Ele introduz na natureza semelhante aos dos filhos eleitos de Deus. 

Podemos concluir observando que o Shabat se prolonga no contexto do projeto salvífico inclusivo de Deus, tendo o próprio Cristo cumprido todas as profecias e não quebrando os preceitos.

por Jorge Augusto.

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