Pe. Afonso e seu caminho de confiança e entrega.

por Maycon CUSTÓDIO nds

A Congregação de Nossa Senhora de Sion (Irmãos e Irmãs) celebra neste ano de 2017 os 175 anos da Aparição da Virgem Maria a Afonso Ratisbonne. Uma ocasião como esta nos ajuda a refletir sobre nossa história de Sion, de ontem, hoje e do amanhã a ser construído.

Os fundadores da Congregação devem ser perenes convites de conversão e estímulo na caminhada de seguimento a Jesus Cristo; afinal, foram eles os primeiros a percorrer os caminhos da vontade de Deus acerca de Sion. Em primeiro lugar, Sion nasceu no desejo de Deus, fecundou e então deu frutos no solo da doação, da confiança, nos corações dos Fundadores.

Há 175 anos, um jovem era tocado pela graça de Deus, para ser “instrumento de escolha para levar o Seu Nome” (At 9,16). Olhando para esta figura ímpar da história de Sion, só podemos nos lançar inteiramente nas mãos de Deus e confiar na sua presença. Aliás, confiança é uma das virtudes que percorrem os escritos e os meandros da vida de Père Marie. Em 1861 ele escreve: “Quem conhece Deus, sentiu os efeitos da ternura divina e não confia nele para sempre, sempre, merece terminar a vida num hospício”.

Como sabemos, ele é filho de Augusto e Adelaide. Nasceu em Strasbourg, na França. Sua família é proprietária de um estimado banco na cidade. Seu irmão mais velho, Theodoro, se tornou cristão após longa busca, exemplificando a imagem bíblica do homem sedento por encontrar a Deus e que O busca constantemente (Cf. Sl 42); diz ele acerca de sua busca: “Muitas vezes ficava sozinho e sonhava com Deus, com a religião, com um objeto vago que pudesse corresponder à sede de minha alma”[1]Sua inquietante busca conhece consolos quando encontra a Pessoa de Jesus Cristo. Se os caminhos da Providência foram longos para Theodoro, para Afonso o caminho foi bem mais curto.
Deus quis usar de misericórdia para com este israelita, filho de Abraão e irmão de Jesus. A mudança na vida de Afonso tem data e momentos precisos, como para aqueles primeiros discípulos do Evangelho de João que não esqueceram nem mesmo o dia e a hora do encontro com o Senhor, o Messias que tinha chegado (Cf. Jo 1,35-29): Vinte de Janeiro de 1842, Igreja Santo André Delle Frate, em Roma, por volta das 13h.

Foi nesta Igreja que Afonso encontrou a razão de sua existência e neste mesmo encontro definiu o projeto de toda a sua vida. Ele saiu daquela Igreja com o coração repleto do amor Deus. A experiência em Roma plantou no coração de Afonso a veneração por Jerusalém. Sentia que era naquela cidade que sua vida encontraria razão e realização plena. Em 1855 ele chega a Jerusalém; anos depois escreve: “Durante toda a minha vida eu senti uma atração irresistível por Jerusalém, mas agora eu estou para sempre preso, cativado e como que acorrentado. Gostaria de nunca mais deixar este lugar único no mundo. Desejaria morrer neste lugar sagrado e sepultar-me com Jesus Cristo. Estou, pelo menos, decidido a tudo sofrer, para servir Jerusalém”[2].

O caminho que ali encontrou, ele o percorreu com fidelidade e paixão. Vinte de Janeiro marcou profundamente a existência deste israelita. Sem medo poderia ele dizer como Jeremias, o Profeta: “Seduziste-me Senhor, e me deixei seduzir” (Jr 20,7).

No altar de São Miguel, ele tem uma experiência com a Virgem Maria, Filha de Israel e Mãe do Senhor. Alguns dias depois, em 31 de janeiro de 1842 recebe o Batismo e quando perguntado pelo nome que queria receber, responde simplesmente: “Maria”. Na singeleza desta resposta esconde-se o programa de vida de Afonso: como Maria, que se colocou à disposição de Deus, na simplicidade, na singeleza, na grandeza de se colocar a serviço, assim quer ser Maria Afonso, um instrumento nas mãos de Deus para a realização da Sua vontade.

Para ele, Maria está ligada à vocação de Israel e à vocação do Povo Eleito. Assim ensina: “Ela amava a Deus com toda a energia de sua alma e desejava com ardor a salvação que Deus prometera a seu povo. Eis o mistério da grandeza e da beleza de Maria diante de Deus”[3]Ela ainda era em sua vida o grande sinal da misericórdia de Deus. Aliás, esta foi uma das primeiras experiências que sentiu a partir da Aparição. Menos de um mês após a aparição ele diz: “Fixei os olhos sobre suas mãos e nelas percebi a expressão do perdão e da misericórdia”. Em 1862, ele se refere à Virgem como a “mensageira da graça destinada a nos anunciar a misericórdia e bondade divina”.

Na Escritura, os homens e mulheres chamados para uma missão são marcados por esta escolha de tal modo a tocar todo o seu ser, assim também acontece com Afonso. Esta escolha, ainda de acordo com a Escritura, resulta na mudança de nome (Abrão – Abrãao; Sarai – Sara). Não mais apenas Afonso, mas Maria Afonso Ratisbonne. Pois este nome torna-se uma realidade na vida de Afonso. “Algumas horas antes da morte, que sobreveio no dia 6 de maio de 1884, ele disse: ‘Por que assassinar-me com esses remédios? A Santíssima Virgem me chama e eu preciso dela. Apenas Maria! Para mim é tudo. Maria! Tudo está ai!”, narrou o Pe. Estrate.

Indo para Jerusalém desenvolve um frutuoso trabalho com crianças judias e árabes. “Como eu ficaria feliz, se pudesse acolher um dia todas as crianças pobres de Jerusalém e da Terra Santa”[4]; constrói casas, proporciona a ida de várias Congregações para a Terra Santa e gera obras de educação de crianças. Jerusalém foi o grande sonho de Pe. Maria Afonso e a fonte de todo o seu trabalho como Sion. Na verdade, não se compreende Maria Afonso sem olhar para Jerusalém. “Parece-me que boa parte de meu coração, minha alma e minha vida permanece aqui”, escreveu ele a Pe. Theodoro em fevereiro de 1878.

Ao recordar os 198 anos do nascimento de nosso Fundador, a Família Sion é convidada a olhar para a vida de Maria Afonso e perceber a ação de Deus em seu favor e através dele, a favor de todos nós, que somos Sion. E aprender dele a sermos dóceis à vontade de Deus e às suas inspirações. Em 1883 (cinco anos antes de sua morte) Pe. Maria Afonso escreve:

“Eis-me bem cansado após uma longa caminhada. Eu gostaria de descansar, retomar o fôlego e lembrar-me dos acontecimentos antigos e, sobretudo pensar nos acontecimentos futuros…Mas o que pensar do dia 20? É necessário calar-se, recolher-se e adorar!”

Na sua última visita a Roma, em fevereiro de 1878, em frente à capela do Ecce Homo, Pe. Maria Afonso sente forte em seu coração como que uma ordem:“Caminha! Caminha!”.

Que Maria Afonso nos impulsione para avançarmos cada vez mais no trabalho iniciado por ele juntamente com seu irmão Theodoro Ratisbonne. E que nossa vida religiosa em Sion seja contemplativa da misericórdia de Deus e ativa na realização de Sua Vontade a respeito de nossa vocação, testemunhando o amor de Deus por Israel e por todos nós. Assim nos ajude Maria, a Virgem de Sion.

[1] Cf. Evocações, p. 21.

[2] Cf. Anais de Sion na Terra Santa. Dezembro de 1878.

[3] Cf. Homilia de Pe. Afonso em 1845.

[4] Cf. Anais da missão na Terra Santa, 1887.

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