“Fui nazista e me arrependo”.

Nos últimos anos, muitas vítimas de violência têm escrito memórias nas quais elas procuram e confrontam aqueles que as agrediram. O oposto é muito raro. Poucos agressores procuram as suas vítimas, muito menos escrevem livros sobre elas. Mas há cinquenta anos, Melita Maschmann, uma ex-nazista, publicou um livro nesta linha.

“Fazit”, que foi traduzido como “Account rendered” (Contas prestadas) em 1964, é o livro de memórias de uma mulher que, aos quinze anos de idade, e contra a vontade de sua família, entrou para a Juventude Hitlerista. Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Maschmann trabalhou nos altos escalões da imprensa e propaganda do Bund Deutscher Mädel, seção da organização da juventude feminina nazista e, mais tarde, ela supervisionou a expulsão de agricultores polacos e o reassentamento das etnias alemães em suas fazendas. Presa em 1945 na idade de vinte e sete anos, ela completou um curso de “desnazificação” obrigatória e se tornou uma jornalista freelance.

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Melita Maschmann

Logo após sua libertação da internação em 1948, Maschmann escreveu uma carta a uma ex-colega de classe judia com quem teve o tipo de amizade comum entre meninas adolescentes. Ela não sabia se sua amiga tinha conseguido sair de Berlim antes da guerra, ou se sua mãe (cujo endereço ela havia obtido) passaria a carta adiante. “Eu não sei se ela chegou a você”, escreve a autora. “Desde então, tenho frequentemente conversado com você, acordada e em sonhos, mas eu nunca tentei colocar algum deles por escrito. Agora, hoje, eu me sinto impelida a fazê-lo. Fui obrigada a isto por um incidente trivial. Uma mulher falou comigo na rua e o jeito que ela apoiava a cabeça lembrou-me imediatamente de você. ”

“O que eu espero, ou me atrevo a esperar, é que você possa ser capaz de entender – não desculpar – os passos errados que tomei os quais devo informar, e que tal entendimento possa formar a base para um diálogo duradouro. ”

Em uma carta, Maschmann expressou seu desejo de ajudar os ex-colegas nazistas a refletir sobre suas ações e ajudar os outros a “entender melhor” por que pessoas como ela tinham sido atraídas a Hitler.

“Contas prestadas” apareceu num momento em que a frase de Arendt “a banalidade do mal” estava se formando na conversa pública, e enquanto o parlamento da Alemanha Ocidental estava debatendo o estatuto de limitações sobre os crimes cometidos pelos nazistas.

Na Alemanha, o livro passou por oito edições (a última em 1987) e foi adicionado à lista de leitura do ensino médio, em alguns distritos escolares. Tornou-se parte de debates privados e públicos da Alemanha. Os historiadores do período nazista Daniel Goldhagen e Claudia Koonz, entre outros, utilizaram “Contas prestadas” como fonte primária.

Logo após a publicação do livro, a autora efetivamente desapareceu da vista do público. Ela tinha encontrado um guru, Sri Anandamayi Ma, uma mulher venerada como uma “santa viva”, na Índia. Maschmann tomou um nome Hindu, viveu nos ashrams da Índia, e retornou à Alemanha apenas em breves visitas familiares a cada dois ou três anos.

Fonte: The New Yorker.
Tradução: Fr. Joel Moreira, nds.

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